terça-feira, 19 de agosto de 2008

Ventilação Mecânica Aplicada - DPOC

Ventilação Mecânica aplicada à Doença Pulmonar Obstrutiva Crônica (DPOC) descompensada.

DPOC abrange um grupo de patologias respiratórias que acarretam em obstrução crônica à passagem do fluxo gasoso através das vias aéreas, a obstrução pode ter um caráter fixo ou parcialmente reversível. Encontra-se na DPOC, graus variáveis de bronquite crônica e enfisema pulmonar.

O aumento da resistência das vias aéreas (causada pela inflamação, hipersecretividade e broncoespasmo) e a perda de retração elástica pulmonar, resultam no prolongamento da constante de tempo expiratória (esvaziamento alveolar), o resultado disso é o aumento da capacidade residual funcional - CRF e hiperinsuflação.

Uma elevação na FR em virtude do aumento da demanda ventilatória resulta em hiperinsuflação pulmonar dinâmica (que se sobrepõe ao aumento da CRF pelo encurtamento do tempo expiratório) e aprisionamento de ar - auto-PEEP ou PEEP intrínseca.


A hiperinsuflação ou a auto-PEEP, por sua vez , impõe uma sobrecarga aos músculos inspiratórios para iniciar ou deflagrar a inspiração e prejudica a performance muscular respiratória em virtude da redução da curvatura diafragmática (perda da zona de aposição) e do encurtamento das fibras musculares. O uso crônico de corticoesteróides e a desnutrição, presentes nas fases mais avançadas da doença, podem resultar em perda direta da força muscular.


Nas exarcebações mais graves da DPOC pode haver perda do comando neural à hipoxemia e hipercapnia. Uma acidose respiratória e hipoxemia importantes podem justificar a necessidade de ventilação mecânica artificial.

VENTILAÇÃO MECÂNICA na DPOC

A ventilação mecãnica está indicada na DPOC quando as exarcebações respiratórias resultam em hipoxemia e acidemia. O suporte ventilatório inicial de escolha é o não invasivo - VNI, porém nos casos mais graves ou mesmo quando houver falha na VNI, a intubação endotraqueal será necessária para se instituir a ventilação mecânica.

Na DPOC, tanto o modo ventilatório com volume controlado quanto o pressão controlada podem ser utilizados. Independente da modalidade utilizada, a estratégia ventilatória deve visar o repouso muscular respiratório por pelo menos 24 horas
em modo controlado, estando o paciente sedado adequadamente e a redução da hiperinsuflação pulmonar dinâmica.

O tratamento das exarcebações respiratórias deve ser instituído imediatamente para que se reduza o aumento da demanda ventilatória (volume minuto alto) e a resistência das vias aéreas.

A programação dos parâmetros ventilatórios também deve visar a redução da hiperinsuflação dinãmica pulmonar e suas complicações: repercussão hemodinâmica, barotrauma e sobrecarga muscular respiratória para iniciar a inspiração. A monitorização do gráfico fluxo / tempo permite detectar a presença da auto-PEEP, durante a exalação a presença de fluxo expiratório até o início da próxima inspiração sinaliza a presença da hiperinsuflação dinâmica ou auto-PEEP.


A meta ventilatória nestes casos é manter um pH próximo à faixa de normalidade ou até mesmo uma discreta acidose respiratória, desde que não haja arritmias cardíacas, hipertensão intracraniana e insuficiência coronariana como contraindicações da hipercapnia. Então, uma redução do volume minuto alveolar por meio do uso de VC baixo (entre 6 e 8 ml/Kg de peso) e/ou uma FR baixa (entre 10 e 12 irpm) permite ajustar um tempo inspiratório menor se também utilizarmos um fluxo inspiratório mais alto (> 60 l/min). Não devemos ultrapassar uma pressão de pico de 45 cm H2O e uma pressão de platô de 30 cm H2O.

Desta forma é possível prolongar o tempo expiratório e permitir uma maior exalação. Esta medida permite uma redução da hiperinsuflação dinâmica ou auto-PEEP.
Sob esta condição, podemos realizar as medidas da mecânica do SR (complacência pulmonar e principalmente a resistência das vias aéreas) e a auto-PEEP. Uma PEEP extrínseca ou PEEP programada pode ser ajustada a um valor próximo (85%) ao da PEEP intrínseca (auto-PEEP), isto facilitará o disparo do ventilador mecânico pelo paciente no modo assistido.

Na fase de transição para o desmame da VM, é muito importante a otimização da sincronia paciente/máquina, a fim de proporcionar atividade muscular respiratória sem que haja sobrecarga. A otimização da função função ventilatória do paciente é fundamental nesta fase, para isso, a administração de medicamentos inalatórios, o posicionamento corporal adequado e a remoção de secreções traqueais devem fazer parte de uma rotina rigorosa que deverá acompanhar uma monitorização constante do trabalho respiratório, troca gasosa e ausculta pulmonar.

O modo ventilatório PSV é bem tolerado por estes pacientes na fase de desmame, a PEEP programada deve respeitar o valor de 85% da auto-PEEP. A titulação da PSV deve acompanhar uma FR menor que 30 irpm. Valores entre 15 e 20 cm H2O de PSV são geralmente utilizados nesta fase ventilatória, porém pode variar um pouco mais. Altos níveis de PSV resultam em volumes correntes elevados e maior aprisionamento de gás (auto-PEEP). Alguns respiradores dispõem de ajustes na ciclagem e no tempo de pressurização inspiratória, estas medidas, quando bem programadas, permitem maior conforto ventilatório ao paciente com DPOC.

Referência:

III Concenso Brasileiro de Ventilação Mecânica;
Peter J. Barnes, D.Sc. COPD - Review Article, N Engl J Med. 2000; 269 - 80.

Aguardem próximas publicações!

Abraços!

4 comentários:

Michelle disse...

Olá Daniel!
Estou no último semestre da graduação de fisioterapia na Universidade de Fortaleza e procurando sites sobre ventilação mecânica acabei encontrando o seu blog.
Você está de parabéns pela iniciativa. Aborda os temas de forma bem simples, coerente e com ótimas ilustrações, facilitando o entendimento de quem ler.
Gostei muito do relato de caso da lactente a qual foi instituída o CPAP como tratamento. A comparação dos RX mostra como nosso trabalho é importante e indispensável.
Vou aguardar novas postagens.

Abraços
Michelle.

Thaise Sanches disse...

Tava um tempo sem passar por aqui... adorei esse post de DPOC! sempre mto interessante!

beijos,
Thaise

Anônimo disse...

Grande Mestre! Sempre que visito o blog, me surpreendo cada vez mais com os assuntos de grande relevância e do cotidiano de Fisioterapeuta que atua em uma UTI. Muito obrigado pela contribuição acadêmica e pelos serviços prestados à Fisioterapia.Aproveito para desejar Feliz Ano Novo a toda equipe da Fisio HCPM. Forte abraço! CB Paulo HCPM

Anônimo disse...

Gostei da sua materia, mas sera que poderia me responder algumas perguntas o que seria exarcebaçao,acidemia, oxigenação tissular.